Hotelaria e meio ambiente andam juntos
Fortaleza - A cada dia fala-se mais de gestão sustentável e os seus benefícios. No ramo da hotelaria não é diferente. Hotéis e pousadas de todo o mundo têm aderido a práticas e ações que buscam o equilíbrio com a natureza e ainda por cima garantem uma boa economia de recursos no fim do mês. Em Fortaleza, o setor ainda está dando os primeiros passos no caminho à sustentabilidade, mas já apresenta alguns bons resultados.

Você imagina que economizando toalhas garante o plantio de árvores? Essa é uma das ações da política ambiental da cadeia de hotéis Ibis. A rede investe o dinheiro economizado com a lavagem de toalhas no plantio de árvores. Para participar, o hóspede só precisa colocar a peça estendida no porta-toalhas, de modo a deixar claro que não quer que ela seja levada. Segundo o coordenador da área ambiental do hotel Ibis Fortaleza, Paulo Sérgio da Silva, para a realização das ações há uma campanha de conscientização junto aos funcionários, hóspedes e fornecedores.

A cada dois meses, os funcionários do hotel Blue Tree, que fica à beira-mar de Fortaleza, descem à praia e fazem uma limpeza do local. A atividade faz parte do momento de lazer que a empresa proporciona aos seus funcionários. Já no Comfort Hotel, um dos projetos implantados e praticados pelos funcionários é a substituição de copos descartáveis por copos reutilizáveis. “É um pouco difícil, mas aos poucos a gente vai conseguindo”, conta a gerente do Comfort Hotel, Catarina Martins, sobre a iniciativa.

A tecnologia, quando bem empregada, também pode ser uma grande aliada das gestões sustentáveis. Além de sensores de presença, que desligam luzes e ar-condicionado na ausência dos hóspedes, e que é a tecnologia mais comum entre os hotéis do Estado, há também outros equipamentos que proporcionam a economia dos recursos naturais no setor hoteleiro.

Neste quesito, os hotéis Blue Tree e Comfort Hotel são destaques. No primeiro foi instalado um equipamento que utiliza o calor produzido no sistema de ar-condicionado para esquentar a água dos chuveiros de todo o hotel. Para a assistente de RH, Alessandra Costa, do Blue Tree, o sistema foi um grande investimento e veio contribuir para a redução de gastos. “Quanto mais a companhia investe, mais a gente descobre que precisa melhorar”. Já o Comfort, conta com chuveiros de tecnologia italiana para controlar a pressão da água e evitar o desperdício.

A preocupação com a dimensão ambiental na hotelaria cearense também se manifesta nas redes hoteleiras fora do circuito da capital. Em Beberibe, o hotel Parque das Fontes realiza ações de responsabilidade socioambiental. Faz a limpeza na praia e cuida das falésias da região. Também, além de utilizar placas para a obtenção de energia solar que auxiliam na produção de energia do hotel, participam do Projeto Ecoelce, da Companhia Energética do Ceará (Coelce). O hotel tem abatimento na conta de luz ao trocar resíduos recicláveis por energia.

O hotel Parque das Fontes, ainda, mantém o Centro de Construção da Cidadania, em parceria com o hotel Coliseum, a prefeitura de Beberibe e a sociedade civil. A ONG atende crianças, adultos e idosos das comunidades do entorno, e presta serviços voluntários de reforço escolar, cursos diversos, práticas desportivas, e outras atividades, além de incentivar à educação ambiental. “Nosso maior investimento é a conscientização”, afirma o gerente do hotel, Dimas Ribeiro.

Contudo, para um dos mais procurados destinos turísticos do Brasil, a capital cearense ainda parece engatinhar no quesito “práticas de sustentabilidade”. A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Ceará (ABIH-CE), assim como as Secretarias de Turismo de Fortaleza (Setfor) e do Estado do Ceará (Setur) desconhecem ou fomentam iniciativas ou ações, junto às redes hoteleiras, que levem a práticas ambientais. Apenas o hotel Ibis possui a certificação ISO 14001, um sistema de padronização de comprometimento com a gestão ambiental.

Muitos dos hotéis da capital que receberão os jogos da Copa das Confederações no ano que vem e da Copa do Mundo de 2014 parecem desconhecer o assunto. Muitos dos colaboradores procurados pela equipe do O Estado Verde sequer sabiam para onde encaminhar nossas perguntas. Fica claro que não apenas faltam uma política ambiental e uma área voltada para assuntos do meio ambiente nesses estabelecimentos, mas também um corpo de profissionais treinados e capacitados para lidar com o novo paradigma.

UMA QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA

Por outro lado, tal situação parece não fazer diferença para os usuários das redes hoteleiras. O estudante de publicidade Kaio Castro, que costuma viajar para congressos e seminários pelo Brasil, confessa que não costuma atentar para as práticas ambientais dos hotéis em que fica, mas que também nunca foi orientado a realizar qualquer ação sustentável. “Sustentabilidade não é um fator decisivo na escolha do hotel, mas acho importante as iniciativas”, confessa.

Já o professor de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC) Paulo Eduardo Lins, que viaja pelo menos uma vez por mês para diversos destinos brasileiros, afirma que por mais que haja a dificuldade de escolher hotéis com práticas ecologicamente corretas devido à distância, a preocupação do hotel com o meio ambiente é, para ele, um dos principais critérios de fidelização. “Como nem sempre eu faço as reservas, torna-se difícil selecionar o hotel pelas suas práticas. Contudo, estes elementos de sustentabilidade são essenciais no meu retorno ao local como hóspede”, afirma.

Para a turismóloga Vilany Souza, com o assunto sustentabilidade em alta, os turistas têm apresentado certa mudança de hábitos. “Cada vez mais eles estão procurando unidades hoteleiras preocupadas com questões ambientais”. Ela ressalta, ainda, que os prejuízos da falta de comprometimento com a dimensão ambiental vão impactar não apenas nos recursos naturais, mas também, no desenvolvimento da empresa. Para ela, mais que uma forma de marketing, “a utilização de um sistema de gestão ambiental nos hotéis surge como garantia da sobrevivência futura do setor”.

O ESPECIALISTA RESPONDE

Segundo o administrador de hotéis Eroni Fonseca, “o passo mais urgente” para a adoção de práticas sustentáveis na hotelaria é a conscientização dos funcionários. É importante que entendam bem o processo e saibam orientar os hóspedes para a utilização racional dos recursos naturais. “E uma ação puxa a outra”.

Eroni Fonseca é formado em Administração Hoteleira pela Universidade de Caxias do Sul e trabalha há 27 anos em gestão hoteleira.

[OeV] Qual a importância de uma gestão sustentável para o desenvolvimento do setor hoteleiro?

[Eroni Fonseca] Hoje em dia, o empresário deve pensar em todas as partes interessadas de seu negócio, especialmente na comunidade do seu entorno e nos impactos do seu empreendimento. Isto significa que devem ser identificados todos os aspectos de seu negócio e compreendidas as legislações ambientais relevantes à sua situação. As empresas que melhor gestão fizerem desses aspectos, receberão o apoio da comunidade e mais facilmente se fixarão na memória dos mesmos, obtendo vantagens competitivas frente aos seus concorrentes.

[OeV] Um hotel pode realizar metas para a sustentabilidade mesmo sem certificação ambiental ISO 14001?

[Eroni Fonseca] Pode e deve. A certificação ISO 14001 visa apenas chancelar as ações para um sistema de gestão ambiental efetivo. Não deve ser só uma norma “no papel”. A certificação requer um comprometimento de toda a organização. Se os benefícios ambientais e seus lucros aumentam, as partes interessadas verão os benefícios.

[OeV] Como você avalia os avanços da hotelaria local com relação às práticas para a sustentabilidade?

[Eroni Fonseca] Apesar de pequenos, os avanços podem ser percebidos principalmente na conscientização de todos os colaboradores, que participam e promovem as ações de melhoria contínua. Além do mais, são muitas as tecnologias disponíveis que propiciam ações para melhoria de eficiência energética.

[OeV] O que vai mudar na hotelaria local com a vinda de grandes eventos como a Copa de 2014?

[Eroni Fonseca] O grande ganho será na prestação de serviços, com melhorias no atendimento ao público, atualmente é um dos gargalos do setor. A qualificação mais consistente vai propiciar o aprimoramento técnico dos colaboradores e gestores.
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